Nordeste perde presença de operadores logísticos e expõe gargalo de mão de obra

Participação dos operadores pesquisados com atuação na região caiu de 69% para 61% entre 2024 e 2026. Ao mesmo tempo, 61% classificam como alta ou muito alta a dificuldade de contratar e reter profissionais no Nordeste.

O Nordeste tenta ampliar sua participação em uma nova onda de investimentos ligados à indústria, energia, tecnologia e infraestrutura.

Mas existe uma parte dessa equação que nem sempre recebe a mesma atenção:

a logística.

Dados do estudo Perfil dos Operadores Logísticos do Brasil 2026, realizado pela Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) em parceria com o Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), mostram que a proporção dos operadores pesquisados com atuação no Nordeste caiu de 69% em 2024 para 61% em 2026.

Não significa necessariamente que oito em cada cem empresas fecharam operações na região.

O indicador mostra que, dentro da amostra pesquisada, caiu a proporção de operadores que declararam atuar no Nordeste.

Mesmo assim, o movimento merece atenção.

Principalmente porque ocorre ao mesmo tempo em que a região enfrenta outro desafio:

mão de obra.

61% e 61%: dois números que chamam atenção

Existe uma coincidência estatística interessante no levantamento.

Em 2026:

61% dos operadores pesquisados declararam atuar no Nordeste.

E:

61% avaliaram como alta ou muito alta a dificuldade de contratar e reter trabalhadores na região.

Desse segundo grupo, 22% classificaram a dificuldade como muito alta e 39% como alta.

O Nordeste aparece próximo do Norte, onde esse indicador chega a 63%, e acima das proporções observadas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Para uma região que pretende ampliar sua participação nas cadeias industriais, energéticas e digitais, esse é um sinal importante.

Não basta ter terreno, energia, porto ou incentivos.

É necessário ter pessoas preparadas para operar a cadeia que conecta tudo isso.

Onde estão os profissionais que faltam?

No cenário nacional, um dos principais problemas aparece na contratação de motoristas para frota própria.

Segundo o estudo, 21% dos operadores consideram essa dificuldade muito alta e 35%, alta.

A armazenagem também aparece entre as áreas onde encontrar trabalhadores se tornou mais desafiador.

Uma pesquisa específica divulgada pela ABOL em julho reforça essa preocupação.

Entre as empresas associadas ouvidas, 88,9% apontaram a falta de profissionais capacitados como principal obstáculo para ampliar ou manter o quadro de motoristas.

A baixa atratividade da carreira apareceu em seguida, citada por 66,7%.

O problema já produz efeitos operacionais.

Entre as empresas consultadas nesse levantamento, 77,8% afirmaram que a escassez aumenta o tempo necessário para preencher vagas e 66,7% apontaram elevação de custos.

Isso transforma qualificação profissional em uma questão de competitividade.

A logística brasileira movimenta R$ 247 bilhões

O tamanho econômico do setor ajuda a dimensionar o problema.

O estudo estima aproximadamente 1,5 mil operadores logísticos no Brasil, com faturamento conjunto de cerca de:

R$ 247 bilhões por ano

O valor cresceu aproximadamente 18% em relação à pesquisa realizada dois anos antes.

Dados publicados diretamente pela ABOL também colocam o segmento acima de R$ 247 bilhões anuais e relacionado a milhões de empregos diretos e indiretos.

Mas crescimento de receita não significa necessariamente aumento equivalente de rentabilidade.

Entre os operadores pesquisados, 44% disseram que os preços cobrados aumentaram menos do que seus custos no último ano.

Combustíveis, transporte rodoviário e operações aéreas aparecem entre as principais pressões.

Isso ajuda a explicar por que empresas podem priorizar mercados onde encontram maior retorno.

O problema não termina na mão de obra

Outro dado do estudo talvez seja ainda mais estratégico para o Nordeste:

80% das cargas movimentadas pelos operadores continuam utilizando apenas um modal.

Embora 31% das empresas trabalhem com alguma forma de multimodalidade, apenas 20% das cargas movimentadas passam por dois ou mais meios de transporte.

Isso significa que a integração entre rodovia, ferrovia, hidrovia, portos e aeroportos ainda é limitada.

O transporte rodoviário é utilizado por 94% dos operadores.

A ferrovia aparece em apenas 5%.

O transporte hidroviário, em 3%.

Para um país continental, esses números revelam uma dependência elevada das rodovias.

E para o Nordeste, onde portos, novas ferrovias, hidrovias e corredores de exportação fazem parte das estratégias de desenvolvimento, esse é um ponto especialmente relevante.

O terminal pode ser tão importante quanto a ferrovia

Ter ferrovia não significa automaticamente ter logística ferroviária eficiente.

É necessário ter infraestrutura que permita colocar e retirar carga dos trilhos.

Nesse ponto, o levantamento apresenta outro alerta:

55% dos operadores identificaram pouca oferta de terminais ferroviários.

Na infraestrutura hidroviária, esse percentual chega a 70%.

Além disso:

53%

apontaram indisponibilidade de infraestrutura adequada para integração entre rodovia e ferrovia.

Esse dado conversa diretamente com a discussão sobre recuperação de ferrovias ociosas no Brasil.

Reativar trilhos pode ser importante.

Mas um trilho isolado não resolve uma cadeia logística.

É necessário conectar:

PRODUÇÃO → ARMAZÉM → TERMINAL → FERROVIA → PORTO → MERCADO

Sem os elos intermediários, a infraestrutura perde parte do seu potencial.

Tecnologia avança, mas pessoas continuam sendo essenciais

O setor também está se tornando cada vez mais digital.

Dados divulgados pela ABOL mostram adoção elevada de sistemas de gestão de transportes e armazenagem, além do crescimento de torres de controle, análise de dados e automação.

Mas a própria entidade destaca que o ganho de produtividade depende de profissionais capazes de utilizar essas tecnologias.

Em levantamento anterior, 96% dos operadores declararam investir em treinamento, enquanto 72% haviam ampliado investimentos em qualificação.

Isso ajuda a desconstruir uma ideia comum:

tecnologia não elimina automaticamente o problema da falta de profissionais.

Na prática, pode modificar o tipo de qualificação necessária.

Operações automatizadas continuam precisando de técnicos, gestores, profissionais de manutenção, analistas de dados, operadores de sistemas, especialistas em armazenagem e trabalhadores preparados para processos cada vez mais integrados.

O que isso significa para novos investimentos no Nordeste?

Aqui está a questão que interessa especialmente à SUSTENDATA.

Imagine uma empresa avaliando onde construir uma nova fábrica.

Ela pode encontrar no Nordeste:

energia renovável competitiva, área disponível, incentivos, acesso portuário e proximidade de mercados.

Mas depois surgem outras perguntas:

Existe operador logístico disponível?

Há profissionais capacitados?

A ferrovia realmente se conecta ao terminal?

Existe armazenagem?

Quanto custa movimentar a carga?

É possível combinar rodovia, ferrovia e porto?

Quanto tempo leva para contratar uma equipe?

Esses fatores também entram na decisão de investimento.

Portanto, logística não deve ser analisada apenas como um setor separado da indústria.

Ela faz parte da infraestrutura econômica necessária para que novos investimentos funcionem.

Um alerta que pode virar oportunidade

Os dados não significam que o Nordeste perdeu relevância logística.

O levantamento mostra uma retração recente na presença dos operadores pesquisados e um gargalo importante de capital humano.

Mas também revela exatamente onde estão algumas das oportunidades:

formação profissional

mais terminais intermodais

conexão entre ferrovias e rodovias

integração portuária

digitalização

automação

redução de custos operacionais

Uma região que consiga melhorar esses fatores pode transformar logística em vantagem competitiva.

A próxima pergunta não é quantos projetos serão anunciados

Nos últimos anos, o Nordeste acumulou anúncios importantes em energia, indústria, data centers, hidrogênio, portos e infraestrutura.

Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar esses investimentos:

a capacidade logística cresce na mesma velocidade?

Os dados de 2026 mostram que essa resposta ainda merece atenção.

A presença regional dos operadores pesquisados recuou.

A contratação de profissionais está difícil.

A multimodalidade continua limitada.

E faltam pontos eficientes de conexão entre diferentes meios de transporte.

Para o Nordeste avançar da condição de produtor de energia e commodities para uma economia com maior densidade industrial, logística e capital humano precisarão fazer parte da mesma estratégia.

SUSTENDATA | Dados para entender onde território, infraestrutura, indústria e investimento se encontram.

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