Carteira apresentada na B3 inclui sete shortlines, cinco terminais logísticos da Ferrovia Norte-Sul e áreas em 12 pátios ferroviários. Entre os trechos selecionados está a ligação Campina Grande–Cabedelo, na Paraíba.
O Brasil possui milhares de quilômetros de trilhos que existem fisicamente, mas estão ociosos, subutilizados ou em processo de devolução.
Agora, uma nova estratégia pretende tentar recolocar parte dessa infraestrutura na rede logística nacional.
O Ministério dos Transportes apresentou na B3, em São Paulo, um novo modelo de chamamento público que poderá envolver aproximadamente 10 mil quilômetros de ferrovias atualmente sem utilização plena. A ideia é identificar empresas privadas interessadas em recuperar e explorar esses trechos.
A carteira inicial reúne sete shortlines, além do Corredor Minas-Rio, cinco terminais logísticos ligados à Ferrovia Norte-Sul e novas áreas para implantação de terminais em 12 pátios ferroviários.
Mas o dado mais interessante talvez não seja apenas a extensão.
A proposta testa uma pergunta importante para a infraestrutura brasileira:
é possível transformar uma ferrovia ociosa novamente em um ativo econômico?
O que são shortlines?
O termo shortline é utilizado para ferrovias de menor extensão que atendem mercados regionais e podem se conectar às grandes linhas estruturantes da malha ferroviária.
Elas podem movimentar cargas e, dependendo do projeto, também passageiros.
A carteira apresentada pelo Ministério dos Transportes possui sete trechos desse tipo.
São eles:
| Trecho | UF |
|---|---|
| General Carneiro – Miguel Burnier | MG |
| Aguaí – Bauxita | SP/MG |
| Brasília – Luziânia | DF/GO |
| Campina Grande – Cabedelo | PB |
| Roncador Novo – Jardim Ingá | GO |
| Santo Ângelo – Santa Rosa | RS |
| Cruz Alta – Santo Ângelo | RS |
Levantamento publicado pela Folha com base na carteira apresentada indica que esses sete trechos somam aproximadamente 809 quilômetros. O maior deles é Roncador Novo–Jardim Ingá, com cerca de 245 km, enquanto Campina Grande–Cabedelo possui aproximadamente 163,2 km.
Como funcionará o novo modelo?
A principal novidade está na forma de colocar esses trilhos novamente em operação.
Empresas interessadas poderão disputar contratos de autorização ferroviária.
A empresa selecionada deverá apresentar, em até dois anos, um PREC, Plano de Requalificação da Malha, detalhando o que será necessário para recuperar a infraestrutura.
A recuperação poderá acontecer de três maneiras:
com capital privado, com alguma participação de recursos públicos ou por meio de investimentos privados associados a outras obrigações do setor.
Nos casos em que houver necessidade de aporte federal, o Ministério prevê um procedimento competitivo simplificado. A proposta que exigir menor apoio público poderá assumir a execução.
Os contratos poderão chegar a 99 anos.
Isso transforma o modelo em uma tentativa de criar condições de longo prazo para investidores interessados em recuperar infraestrutura ferroviária já existente.
A regulação ferroviária também está mudando
A apresentação ocorre em um momento de atualização das regras ferroviárias brasileiras.
Em agosto de 2026, a ANTT aprovou o ROF 1, Regulamento de Outorgas Ferroviárias, com regras gerais para concessões e autorizações.
A nova norma entra em vigor em 5 de outubro de 2026 e organiza procedimentos relacionados a outorgas, compartilhamento de infraestrutura e funcionamento dos contratos ferroviários.
Ou seja, a carteira apresentada na B3 não aparece isoladamente.
Ela faz parte de uma reorganização mais ampla do ambiente regulatório ferroviário brasileiro.
Minas-Rio será o primeiro grande teste
O projeto usado como referência para o novo modelo é o Corredor Ferroviário Minas-Rio.
A ferrovia possui aproximadamente 733 quilômetros e atualmente integra a malha operada pela Ferrovia Centro-Atlântica.
O leilão está marcado para 17 de dezembro de 2026, na B3. Será o primeiro leilão ferroviário federal em cinco anos.
O corredor será dividido em dois lotes.
O primeiro liga Iguatama, em Minas Gerais, a Barra Mansa, no Rio de Janeiro, incluindo o ramal Varginha–Lavras.
O segundo conecta Barra Mansa a Angra dos Reis.
A empresa vencedora deverá assumir manutenção, recuperação e modernização da infraestrutura.
Por isso, o comportamento desse primeiro processo poderá dar pistas sobre o interesse privado nos demais trechos.
O Nordeste aparece na carteira
Entre as sete shortlines está uma ligação particularmente interessante para o Nordeste:
Campina Grande → Cabedelo
O trecho paraibano possui aproximadamente 163,2 km segundo a carteira divulgada à imprensa e poderá ser analisado tanto para movimentação regional quanto para integração logística.
A importância territorial é evidente.
Campina Grande é um dos principais centros econômicos do interior da Paraíba.
Cabedelo abriga o principal porto organizado do estado.
Um estudo do próprio Ministério dos Transportes sobre transporte ferroviário registra que o trecho Cabedelo–Campina Grande possui bitola métrica e que a circulação ferroviária se encontrava interrompida em parte relevante da ligação analisada.
O Plano de Desenvolvimento e Zoneamento do Porto de Cabedelo também registra que o transporte ferroviário de cargas no complexo portuário foi interrompido em 2010, embora o acesso ferroviário continue existindo.
A inclusão na carteira não significa que o transporte de cargas voltará automaticamente.
Mas coloca novamente essa infraestrutura na discussão sobre integração entre interior, áreas industriais e porto.
Ferrovia Norte-Sul ganha outra frente
A estratégia apresentada pelo Ministério não envolve somente recuperação de trilhos.
Em 3 de dezembro de 2026, cinco terminais logísticos ligados à Ferrovia Norte-Sul serão levados a leilão na B3.
São:
2 terminais de granéis agrícolas
3 terminais de granéis líquidos
Eles estão localizados em Palmeirante e Porto Nacional, no Tocantins.
Documentação oficial da carteira indica que os cinco terminais representam investimentos superiores a R$ 200 milhões e movimentação associada de aproximadamente 1,576 milhão de toneladas por ano.
E não termina nos cinco terminais
Outra frente talvez tenha consequências ainda maiores no médio prazo.
Áreas localizadas em 12 pátios ferroviários da Ferrovia Norte-Sul, distribuídos entre Tocantins, Goiás e São Paulo, serão disponibilizadas em uma plataforma permanente na B3 para implantação de novos terminais.
A lógica é aproximar a ferrovia de:
centros de armazenagem, produtores, indústrias, distribuidores e outros modais de transporte.
Em outras palavras, não basta ter trilho.
É necessário ter lugares onde a carga consiga entrar e sair da ferrovia.
É por isso que terminais são uma peça tão importante da equação logística.
O que muda para quem investe em um território?
Para a SUSTENDATA, essa talvez seja a leitura mais relevante.
Quando uma empresa avalia onde instalar uma fábrica, centro de distribuição ou unidade industrial, a existência de infraestrutura logística entra diretamente na análise.
O território precisa responder perguntas como:
Quanto custa transportar matéria-prima?
Como o produto chega ao mercado?
Existe acesso ferroviário?
Existe porto?
Existe terminal de transbordo?
Existe armazenagem?
É possível conectar diferentes modais?
Ferrovias ociosas não resolvem essas questões.
Ferrovias operacionais e conectadas a terminais podem fazer parte da solução.
10 mil km ainda não significam 10 mil km reativados
Esse é o cuidado mais importante na interpretação da notícia.
Os 10 mil quilômetros representam o universo aproximado de trechos que poderão entrar no novo modelo, e não uma obra de recuperação já contratada.
Entre apresentar um trecho ao mercado e ver um trem novamente circulando existem várias etapas:
INTERESSE → ESTUDO → AUTORIZAÇÃO → REQUALIFICAÇÃO → INVESTIMENTO → OPERAÇÃO
Alguns trechos poderão atrair empresas.
Outros podem não encontrar uma operação economicamente sustentável.
Por isso, a principal métrica daqui para frente não será apenas:
quantos quilômetros foram apresentados?
Será:
quantos quilômetros conseguirão voltar à operação?
Essa é a passagem que realmente transforma infraestrutura existente em capacidade logística.
SUSTENDATA | Dados para entender onde território, infraestrutura, indústria e investimento se encontram.



