Leilão prevê R$ 8,9 bilhões para ampliar transmissão de energia no Brasil

Oito lotes somam 1.866 quilômetros de novas linhas e passam por sete estados. Bahia e Paraíba estão na carteira em um momento em que o avanço das renováveis aumenta a necessidade de uma rede elétrica mais robusta.

O Brasil continua ampliando sua capacidade de produzir eletricidade.

Mas produzir energia é apenas uma parte da equação.

Existe outra infraestrutura que precisa crescer junto:

a rede capaz de transportar essa energia.

O próximo Leilão de Transmissão nº 04/2026 está marcado para 30 de outubro, na B3, em São Paulo, e prevê aproximadamente R$ 8,88 bilhões em investimentos.

Serão oito lotes distribuídos por sete estados, envolvendo 1.866 quilômetros de novas linhas de transmissão e 12.694 megavolt-amperes (MVA) de nova capacidade de transformação.

A estimativa da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) é de 20.312 empregos diretos durante a implantação dos empreendimentos.

Por que transmissão é tão importante?

Uma usina pode gerar eletricidade em uma região distante dos grandes centros consumidores.

Essa energia precisa atravessar o território até chegar às cidades, indústrias e demais consumidores.

É aí que entram as linhas de transmissão e subestações.

De maneira simplificada:

GERAÇÃO → TRANSMISSÃO → DISTRIBUIÇÃO → CONSUMO

A geração produz.

A transmissão transporta grandes blocos de energia por longas distâncias.

A distribuição leva essa eletricidade até consumidores finais.

Se a capacidade de transmissão não acompanha o crescimento da geração, o sistema encontra limitações para transportar toda a energia disponível.

É por isso que ampliar a geração renovável também exige ampliar e modernizar a rede.

O que será leiloado?

O edital final possui oito lotes.

Os empreendimentos serão implantados em:

Bahia
Goiás
Mato Grosso do Sul
Paraíba
Paraná
Rondônia
São Paulo

Os prazos de conclusão variam entre 42 e 60 meses, contados após a assinatura dos contratos de concessão. A EPE informa que, de maneira geral, as obras previstas deverão estar concluídas até fevereiro de 2032.

Bahia aparece em duas frentes

O Nordeste participa diretamente da carteira.

O Lote 1, integralmente na Bahia, combina continuidade de instalações já existentes com novas obras.

Entre as novas instalações estão linhas em 230 quilovolts e ampliação de transformação.

No total, o lote contempla:

238 km de novas linhas

100 MVA de nova capacidade de transformação

A infraestrutura atende principalmente regiões do sul e centro-sul baiano.

O Lote 2 envolve Bahia e Goiás.

A proposta inclui a linha Rio das Éguas–Iaciara 2 e uma nova subestação.

São:

126 km de linhas

300 MVA de transformação

Como esse lote atravessa Bahia e Goiás, os 126 km não devem ser interpretados como extensão exclusivamente nordestina.

Paraíba terá 113 km e 2.100 MVA

O Lote 7 está localizado na Paraíba.

Ele prevê novas instalações relacionadas às subestações de Coremas II e Cajazeiras II, além de adequações na rede existente.

O conjunto soma aproximadamente:

113 km de linhas

e

2.100 MVA

de capacidade de transformação.

Para um estado inserido em uma região com forte presença de energia renovável, ampliar a capacidade da rede pode assumir importância crescente no planejamento elétrico.

Mas o maior lote está fora do Nordeste

O maior volume estimado de investimento está no Lote 4, envolvendo Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás.

A ANEEL estima aproximadamente R$ 4,1 bilhões para esse conjunto, que envolve sistemas em 500 quilovolts e representa parcela relevante dos investimentos totais do certame.

Esse dado também é importante para entender que os R$ 8,9 bilhões não estão concentrados no Nordeste.

O leilão possui abrangência nacional.

O Nordeste produz. Agora precisa transportar.

Para a SUSTENDATA, esse é o principal ponto da notícia.

O Nordeste se tornou uma das grandes regiões produtoras de energia eólica e solar do Brasil.

Mas uma região não transforma potencial energético em vantagem competitiva apenas construindo novas usinas.

Também precisa de:

linhas de transmissão

subestações

capacidade de escoamento

estabilidade da rede

conexão com grandes centros consumidores

A transmissão funciona como a infraestrutura que transforma geração localizada em energia disponível para o sistema.

O próximo passo tecnológico também passa pelo Nordeste

Ao mesmo tempo em que o país prepara o leilão de outubro, o planejamento da transmissão brasileira começou a incorporar tecnologias mais avançadas.

Um dos principais exemplos é o Bipolo Nordeste II.

É importante separar os assuntos:

o Bipolo Nordeste II não faz parte do Leilão de Transmissão nº 04/2026.

Ele aparece no planejamento de expansão de longo prazo do sistema elétrico.

O projeto deverá ligar Angicos, no Rio Grande do Norte, a Itaporanga 2, em São Paulo, por uma linha aérea com mais de 2.500 quilômetros de extensão.

O que é HVDC-VSC?

O Bipolo Nordeste II será o primeiro sistema planejado para o Sistema Interligado Nacional utilizando a tecnologia HVDC-VSC.

HVDC significa transmissão de energia em corrente contínua de alta tensão.

VSC significa conversor fonte de tensão.

Sem entrar em detalhes excessivamente técnicos, essa tecnologia oferece maior flexibilidade para controlar o fluxo de energia e pode ajudar na estabilidade de redes com grande participação de fontes renováveis variáveis, como eólica e solar.

O projeto possui capacidade de referência de 3 gigawatts (GW) e foi concebido justamente em um cenário de expansão da transferência de energia entre regiões.

Do Rio Grande do Norte a São Paulo

A origem prevista do Bipolo Nordeste II em Angicos, no Rio Grande do Norte, dá ao projeto uma dimensão especialmente interessante para a região.

O planejamento busca ampliar a capacidade de exportação de energia do Nordeste para outras partes do Sistema Interligado Nacional.

Isso ajuda a visualizar uma transformação:

o Nordeste não é apenas uma região que recebe infraestrutura elétrica.

É uma região cuja capacidade de geração começa a influenciar diretamente o desenho da rede nacional de transmissão.

Energia disponível pode atrair nova demanda

Existe ainda outra camada nessa discussão.

O próprio Ministério de Minas e Energia relaciona a expansão da transmissão ao crescimento de novas cargas eletrointensivas, incluindo data centers e projetos associados à produção de hidrogênio de baixo carbono.

Ou seja, reforçar a transmissão não serve apenas para escoar energia existente.

Também prepara o sistema para receber novos consumidores de grande porte.

Essa relação começa a formar uma cadeia estratégica:

ENERGIA RENOVÁVEL → TRANSMISSÃO → NOVAS CARGAS → INDÚSTRIA → INVESTIMENTO

R$ 8,9 bilhões representam potencial, não obra pronta

Outro cuidado importante:

os R$ 8,88 bilhões são investimentos estimados dos empreendimentos que serão ofertados no leilão.

O leilão ainda acontecerá em 30 de outubro.

Depois virão assinatura dos contratos, licenciamento, engenharia, aquisição de equipamentos, obras e entrada em operação.

Portanto, o correto é dizer:

R$ 8,9 bilhões em investimentos previstos

e não:

R$ 8,9 bilhões já investidos.

O próximo indicador que merece atenção

Depois do leilão, alguns dados serão especialmente importantes:

quantos grupos participaram

qual foi o deságio de cada lote

quem venceu os ativos

quanto será efetivamente investido

quando as obras entrarão em operação

Essa passagem é importante porque diferencia planejamento de execução.

Mais energia exige mais rede

O Brasil está expandindo sua matriz elétrica com forte presença de novas fontes renováveis.

Isso aumenta a importância de uma rede capaz de transportar, controlar e distribuir grandes blocos de energia entre diferentes regiões.

O leilão de outubro é uma parte dessa transformação.

Projetos como o Bipolo Nordeste II mostram outra.

A pergunta passa a ser:

o país está ampliando sua rede na velocidade necessária para acompanhar a nova geografia da geração e do consumo?

Para o Nordeste, essa discussão será cada vez mais estratégica.

Porque produzir energia em abundância é uma vantagem.

Conseguir transportá-la e transformá-la em atividade econômica é o próximo passo.

SUSTENDATA | Dados para entender onde energia, território, infraestrutura e investimento se encontram.

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