O Brasil acaba de ter sua riqueza mineral reestimada de forma impressionante. Segundo cálculo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as reservas de terras raras em solo brasileiro equivalem a R$ 23,6 trilhões, montante que representa 186% do PIB nacional, estimado em R$ 12,7 trilhões pelo IBGE. Um tesouro no subsolo que, se bem gerenciado, pode reposicionar o país no centro da economia global do século XXI. Se mal explorado, pode se tornar mais um ciclo de extração sem desenvolvimento, e com alto custo ambiental.
O que são terras raras e por que o mundo inteiro as quer
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para praticamente toda tecnologia moderna: baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, smartphones, sistemas de defesa e semicondutores. Apesar do nome, elas não são necessariamente escassas na natureza, o grande desafio está na extração e no processamento, que exigem tecnologia de alta complexidade e geram impactos ambientais severos se não forem bem controlados.
O Brasil possui 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, ocupando a posição de 2ª maior reserva mundial, com aproximadamente 23% das reservas globais conhecidas, ficando atrás apenas da China. O interesse pelo potencial mineral brasileiro cresceu de forma acelerada: em 2024, os pedidos de pesquisa de terras raras no país aumentaram 291%, com 1.370 autorizações concedidas, principalmente nos estados da Bahia, Minas Gerais e Goiás.
Entre os destaques em solo nacional está a Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM), em Minaçu (GO), considerada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) a única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais: Disprósio (Dy), Térbio (Tb), Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr). Em 2025, os Estados Unidos aprovaram um financiamento de até US$ 465 milhões para expandir as operações da Serra Verde, sinal claro do valor estratégico das reservas brasileiras para o mundo.
A contradição central: um país rico no subsolo, pobre na cadeia de valor
Apesar de deter a segunda maior reserva do mundo, o Brasil responde por menos de 1% da produção global de terras raras. A China, por outro lado, não apenas tem reservas, ela domina toda a cadeia produtiva: extração, beneficiamento, refino e manufatura de componentes de alto valor agregado.
“A China tomou uma decisão estratégica há décadas: dominar toda a cadeia produtiva das terras raras. É isso que falta ao Brasil”, afirma Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP.
Essa lacuna tem implicações diretas: o Brasil exporta matéria-prima bruta a preços baixos e importa produtos finais a preços muito mais altos. Para mudar esse ciclo, o país precisaria avançar em:
- Desenvolver tecnologia de beneficiamento e refino em solo nacional;
- Criar um marco regulatório robusto para o setor, atualmente em discussão no Congresso;
- Usar os R$ 5 bilhões que BNDES e Finep estão preparando para financiar a cadeia produtiva de forma estratégica;
- Garantir que empresas nacionais, e não apenas estrangeiras, dominem esse processo.
O governo também sinalizou que a exploração de terras raras deve passar por coordenação estatal, reforçando a visão de que esse patrimônio mineral precisa ser gerido com estratégia de longo prazo, e não apenas entregue ao mercado sem critérios.
Terras raras e a transição energética: a ligação que poucos enxergam
Há uma ironia estrutural no debate sobre terras raras: os mesmos minerais necessários para construir turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos geram, na extração, resíduos tóxicos e radioativos, como tório e urânio, que contaminam águas, degradam solos e destroem biodiversidade, se não forem devidamente controlados.
Casos reais no Brasil já documentam esse risco: resíduos radioativos de antigas operações minerárias travam processos de licenciamento e geram passivos ambientais de difícil solução. O Ministério Público Federal chegou a recomendar a suspensão de projetos de mineração de terras raras em Minas Gerais por preocupações com níveis de radiação, embora órgãos estaduais afirmem que os índices estão dentro dos limites legais.
Isso cria um paradoxo real para a agenda de sustentabilidade global: a transição energética depende de minerais cujo processo de extração, se descontrolado, vai na direção contrária dos objetivos climáticos. A saída não é deixar de extrair, é extrair com responsabilidade ambiental real, o que exige:
- Padrões rigorosos de gestão de resíduos tóxicos e radioativos;
- Monitoramento contínuo de impactos em solos, água e biodiversidade;
- Desenvolvimento de mineração urbana, a recuperação de terras raras de equipamentos descartados, como ímãs, baterias e lâmpadas fluorescentes;
- Transparência total de dados ambientais em todos os projetos de extração.
O Nordeste como elo estratégico nessa cadeia
O Nordeste aparece de forma crescente nessa equação. Com pedidos de pesquisa minerária em alta na Bahia, combinados com a liderança regional em energia renovável e a visão de powershoring que vem ganhando força, a região tem condições únicas de se posicionar estrategicamente:
- Produzir energia renovável em abundância (vento + sol) para abastecer os processos de extração e beneficiamento com energia limpa;
- Fabricar localmente os componentes para turbinas eólicas e sistemas de energia, reduzindo a dependência de importação e agregando valor à cadeia produtiva regional.
“À medida que o país expande sua matriz energética renovável, a demanda interna por ímãs de alto desempenho deve crescer exponencialmente, reforçando a necessidade de domínio da produção desses materiais”, afirma Ysrael Vera, pesquisador do CETEM/MCTI.
A Serra Verde, por exemplo, projeta uma produção de 5 mil toneladas por ano de óxido de terras raras, um volume que, combinado com energia renovável nordestina, poderia alimentar uma cadeia industrial verde completa no Brasil.
O papel dos dados de sustentabilidade nessa agenda
Governar bem a extração de terras raras no Brasil requer, antes de tudo, dados confiáveis e transparentes. Medir emissões, monitorar qualidade da água, rastrear resíduos radioativos, quantificar impactos sociais nas comunidades locais e reportar resultados para investidores e reguladores são tarefas que só são possíveis com uma infraestrutura de dados de sustentabilidade bem estruturada.
É nesse contexto que plataformas como a SustenData se tornam ferramentas estratégicas: fornecendo dados estratégicos que ajudam empresas a tomar decisões mais fundamentadas e a identificar as melhores oportunidades de investimento no setor de forma confiável e orientada a impacto real.
O Brasil tem o tesouro. A questão agora é: como vamos geri-lo?
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