Primeiro leilão de baterias do Brasil bate recorde histórico de cadastramento, com quase 300 GW inscritos

O primeiro leilão brasileiro dedicado exclusivamente à contratação de sistemas de armazenamento de energia em baterias recebeu um volume de inscrições sem precedentes. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), foram cadastrados 6.091 projetos, somando 296.807 megawatts (MW) de potência, o maior volume já registrado em um certame do setor elétrico nacional.

O número surpreende justamente por se tratar de uma tecnologia ainda nova no arcabouço regulatório brasileiro. É a primeira vez que o país organiza leilões voltados especificamente para baterias, e a demanda de cadastramento superou amplamente qualquer expectativa inicial do setor.

Como funciona o leilão e o que ele contrata

Os Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) de Armazenamento de 2026 foram estruturados em dois certames distintos, ambos com data marcada para dezembro. O primeiro, batizado de LRCAP 2026 – Armazenamento Nacional, ocorre em 2 de dezembro e é exclusivo para projetos que atendam a requisitos mínimos de conteúdo nacional, segundo critérios do BNDES. O segundo, o LRCAP 2026 – Armazenamento, será realizado em 4 de dezembro e está aberto a projetos sem exigência de nacionalização.

Dos mais de 6 mil projetos inscritos, 4.939 empreendimentos, o equivalente a 245,6 GW, se cadastraram para disputar as duas concorrências simultaneamente. Outros 357 projetos se inscreveram apenas para o certame de 2 de dezembro, enquanto 795 optaram exclusivamente pela disputa de 4 de dezembro.

O que será negociado nesses leilões são contratos de disponibilidade de potência das baterias, com prazo de suprimento de 15 anos e início de operação previsto para 1º de agosto de 2028.

As exigências técnicas por trás do certame

Para participar, os projetos precisam cumprir uma série de critérios técnicos rigorosos, definidos pelo Ministério de Minas e Energia (MME) em portaria publicada em junho. Entre as exigências estão disponibilidade mínima de 30 MW, capacidade de operação contínua por pelo menos 4 horas, eficiência total mínima de 85% e tempo máximo de 6 horas para recarga completa das baterias.

Uma flexibilização chamou atenção no processo: excepcionalmente para este primeiro leilão, não será exigida a apresentação imediata de Licença Prévia, Licença de Instalação ou Licença de Operação para a habilitação técnica dos projetos. Os prazos para regularização ambiental serão definidos posteriormente, no próprio edital.

Essa flexibilidade inicial provavelmente contribuiu para o volume recorde de cadastros, permitindo que desenvolvedores protocolassem projetos ainda em fase de estruturação, sem depender do avanço prévio do licenciamento ambiental.

Por que armazenamento em baterias é urgente para o Brasil

O tamanho da demanda por esse leilão reflete um problema estrutural que o setor elétrico brasileiro vem enfrentando há anos: o excedente de geração solar e eólica que precisa ser cortado, o chamado curtailment, por falta de capacidade de armazenar ou escoar essa energia nos horários de menor consumo.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico já havia alertado, em relatório de julho, que os cortes de energia renovável devem diminuir ao longo da década, mas permanecerão em níveis elevados até 2030, justamente pela ausência de uma inserção expressiva de tecnologias de armazenamento na matriz nacional . As baterias contratadas neste leilão são, portanto, uma resposta direta a esse gargalo, permitindo guardar o excedente de energia solar gerado durante o dia para uso em horários de pico à noite.

Os próximos passos até dezembro

O cadastramento concluído em 31 de julho é apenas a primeira etapa do processo. Agora, os mais de 6 mil projetos inscritos passarão por análise técnica detalhada da EPE, e somente os empreendimentos habilitados poderão efetivamente participar das disputas de dezembro.

Até 30 de setembro, a EPE deve publicar a nota técnica de capacidade remanescente do Sistema Interligado Nacional para escoamento, um documento importante para calibrar quanto de potência em baterias a rede elétrica brasileira efetivamente consegue absorver nesta primeira rodada.

Vale destacar também que uma proposta de edital divulgada em julho trouxe regras mais duras para os investidores interessados, ainda sem definição clara sobre o encargo que será cobrado dos consumidores para viabilizar os contratos, ponto que deve seguir em debate até a publicação da versão final.

O que esse recorde sinaliza para o setor

Um volume de quase 300 GW cadastrados em um leilão que vai contratar apenas uma fração dessa capacidade mostra dois movimentos simultâneos. Primeiro, a maturidade que a indústria de baterias já alcançou no Brasil, com centenas de desenvolvedores prontos para competir por contratos de 15 anos. Segundo, a percepção do mercado de que o armazenamento em baterias deixou de ser uma aposta de longo prazo e se tornou, na prática, uma peça obrigatória do próximo estágio da transição energética brasileira.

Para investidores e gestores que acompanham o setor elétrico, o resultado do cadastramento já funciona como um termômetro valioso: mesmo antes da definição dos vencedores, o volume de interesse recorde reforça que 2026 marca o início de um novo ciclo de investimento em infraestrutura de flexibilidade energética no Brasil, com efeitos diretos sobre a redução do curtailment e sobre a confiabilidade do sistema elétrico nacional.

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