Custo da energia solar caiu 87% e de baterias 93% desde 2010. O que esses números significam para o Brasil

A Agência Internacional de Energia Renovável, a Irena, publicou um relatório que atualiza o que já se sabia sobre a queda de custos das renováveis. Os números são expressivos o suficiente para merecer atenção de quem toma decisões no setor de energia.

Desde 2010, o custo da energia solar fotovoltaica caiu 87%. O armazenamento em baterias recuou 93%. A eólica onshore ficou 55% mais barata. E mais de 85% da nova capacidade renovável adicionada ao mundo em 2025 já entrega energia a um custo menor do que a alternativa fóssil mais barata disponível.

Não é mais uma projeção. É o dado do presente.

O que os números da Irena mostram

Em 2020, o custo médio da energia renovável firme, aquela que combina geração e armazenamento para garantir fornecimento contínuo, estava em torno de US$ 100/MWh. Em 2025 esse indicador caiu para uma faixa entre US$ 54 e US$ 82/MWh, dependendo do mercado e da tecnologia.

A projeção da Irena para os próximos anos é de redução adicional de 30% até 2030 e de quase 40% até 2035, com o custo médio chegando a US$ 50/MWh nos mercados mais eficientes.

A queda não é resultado de um único fator. É a combinação de melhorias na eficiência dos módulos solares, industrialização da produção de baterias lítio-íon impulsionada pelo mercado de veículos elétricos e ganhos de escala ao longo de toda a cadeia de suprimentos global. Em 2025 foram adicionados 692 GW de capacidade renovável ao mundo. O volume alimenta a curva de aprendizado e comprime os custos no ciclo seguinte.

A posição do Brasil nesse contexto

O Brasil está bem posicionado nessa curva. A eólica onshore brasileira já opera a cerca de US$ 30/MWh, segundo menor custo do mundo, atrás apenas da China. A geração solar tem condições de irradiação entre as melhores do planeta, com o Nordeste registrando mais de 3.000 horas de sol por ano.

Mas o país enfrenta um paradoxo que os números da Irena tornam ainda mais visível. Com energia renovável barata e em abundância, o Brasil desperdiça parte significativa dessa geração em curtailment. As estimativas de impacto sobre o setor chegam a R$ 38,8 bilhões em investimentos suspensos ou redirecionados por falta de infraestrutura de transmissão e flexibilidade operacional na rede.

Em outras palavras: o custo de gerar energia limpa caiu 87% em 15 anos. O custo de escoar e usar essa energia dentro do próprio país ainda não acompanhou essa evolução.

O que muda para projetos e investimentos

A queda de custo projetada pela Irena tem implicações diretas para quem modela projetos de energia no Brasil.

Para desenvolvedores, o LCOE mais baixo amplia a janela de projetos viáveis em regiões que antes não fechavam a conta. Projetos em áreas com menor fator de capacidade, que dependiam de preços mínimos de venda para se sustentar, ganham viabilidade à medida que os custos de equipamento recuam.

Para investidores em ativos de geração, o cenário exige atenção a dois movimentos simultâneos: a queda de custo reduz o valor de geração existente ao longo do tempo, já que novos projetos serão mais competitivos, mas também expande a base de projetos financiáveis, o que aumenta o pipeline de oportunidades para fundos de infraestrutura.

Para gestores de portfólio com exposição ao setor elétrico, a trajetória de custos da Irena é um dado que entra diretamente na modelagem de riscos de longo prazo. Ativos com contratos de longo prazo a preços hoje considerados competitivos podem perder atratividade relativa em 2030, dependendo do ritmo real de queda.

Baterias: a peça que muda o jogo

A queda de 93% no custo de baterias desde 2010 é o número mais estratégico do relatório da Irena para o Brasil de 2026.

O primeiro leilão de armazenamento de energia em baterias do país está previsto para dezembro de 2026. Quando esse mercado se abrir, os projetos vão operar em uma curva de custo muito diferente da que existia quando a discussão regulatória começou. O que parecia caro dois anos atrás pode ser competitivo hoje. E o que parece competitivo hoje pode ser barato em 2028, quando os primeiros contratos começarem a valer.

Essa dinâmica tem uma consequência prática para o desenho dos leilões: o critério de preço precisa incorporar a trajetória de queda, não apenas o custo atual. Contratos de dez anos assinados hoje podem capturar valor diferente dependendo de como os preços de baterias evoluírem ao longo da vigência.

Segurança energética como argumento econômico

A Irena encerra o relatório com uma observação que não é nova, mas que nunca foi tão bem suportada por dados: as renováveis deixaram de ser alternativa ambiental e passaram a ser o centro da estratégia de segurança energética dos países.

A volatilidade dos combustíveis fósseis que marcou os últimos anos, com crises de abastecimento e oscilações bruscas de preço, reforça a atratividade de matrizes que dependem do sol e do vento, recursos locais e sem custo de combustível. A combinação de geração renovável com armazenamento em baterias entrega flexibilidade operacional e reduz a dependência de termelétricas para cobrir os horários de ponta, que é exatamente o problema que o leilão de baterias de dezembro tenta resolver.

Para o Brasil, um país com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, os dados da Irena são um argumento adicional para acelerar a resolução dos gargalos de transmissão e regulação que ainda travam a expansão das renováveis. A tecnologia já resolveu a questão do custo. O que falta é infraestrutura, regulação e dados para tomar as decisões certas.

É nesse ponto que a SustenData atua: organizando as informações que permitem acompanhar essa transição com precisão, do custo de geração ao desempenho dos ativos, passando pelos indicadores regulatórios que afetam o retorno dos projetos.

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