Brasil vai realizar o primeiro leilão de armazenamento de energia em baterias

O governo federal publicou a portaria que define as regras do primeiro leilão de sistemas de armazenamento de energia em baterias do Brasil. O certame, batizado de LRCAP 2026, está previsto para dezembro de 2026 e vai contratar potência proveniente de novos sistemas de baterias para operar no Sistema Interligado Nacional.

Esse é um dos movimentos mais relevantes para o setor elétrico brasileiro nos últimos anos. E o timing não é coincidência.

O que o leilão vai contratar

O objetivo do certame é contratar empresas para instalar e operar grandes bancos de baterias capazes de armazenar energia elétrica nos períodos de geração abundante e liberá-la nos horários de maior demanda.

Os contratos terão duração de dez anos, com início de suprimento previsto para agosto de 2028. A contratação é medida em megawatts de potência de reserva, o que significa que o sistema paga pela capacidade disponível, não pela energia entregue. O modelo é parecido com o que já existe para termelétricas de reserva, mas aplicado a baterias.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico terá autoridade para acionar os sistemas contratados tanto para cobrir picos de demanda quanto para absorver excedentes de geração, dando mais flexibilidade operacional ao sistema como um todo.

Por que esse leilão importa agora

O Brasil expandiu sua capacidade de geração renovável de forma acelerada nos últimos anos. Solar e eólica cresceram, os preços caíram e o país se tornou um dos maiores mercados de renováveis do mundo. Mas esse crescimento criou um problema conhecido: intermitência.

Eólica e solar geram quando o vento sopra e o sol brilha. A demanda tem seu próprio ritmo. Quando a geração sobra, parte é desperdiçada em curtailment. Quando falta, o sistema recorre a termelétricas caras e emissoras.

Baterias resolvem esse descasamento. Armazenam o excedente e entregam quando precisa. Exige leilão, contrato e escala industrial para funcionar no SIN.

O Brasil chegou tarde a essa conversa. China, Estados Unidos, Austrália e Reino Unido já têm mercados maduros de armazenamento em operação. Mas chegou com volume: o primeiro leilão já nasce com interesse confirmado de Tesla, Petrobras, Huawei, CATL e outras empresas de peso.

Quem está de olho nesse mercado

A consulta pública que antecedeu a portaria revelou um campo competitivo incomum para um primeiro leilão. Tesla apresentou duas contribuições formais. A Petrobras enviou manifestação. Huawei e CATL participaram ativamente. O ministro Alexandre Silveira se reuniu pessoalmente com CATL, Huawei, Envision Energy e SANY durante viagem à China para apresentar o desenho do certame.

O interesse chinês é direto: as fabricantes asiáticas dominam a cadeia de suprimentos de baterias de lítio e buscam projetos em mercados emergentes de grande escala. O Brasil, com um sistema elétrico interligado de dimensão continental e um pipeline de renováveis sem precedentes, é exatamente o tipo de mercado que essas empresas buscam.

O que muda para o setor de energia

Para desenvolvedores de projetos renováveis, o leilão de baterias muda o cálculo de viabilidade de plantas eólicas e solares. Curtailment reduzido significa mais horas de operação e receita mais previsível. Para gestores de transmissão e distribuição, significa menos pressão sobre a rede nos horários críticos.

Para investidores, abre uma nova classe de ativo no setor elétrico brasileiro: sistemas de armazenamento com contrato de dez anos garantido pelo governo, remuneração por disponibilidade e demanda operacional coordenada pelo ONS. É um perfil de risco diferente de uma usina de geração, mais próximo de infraestrutura regulada do que de geração livre.

Para o sistema como um todo, o impacto de longo prazo é a redução da dependência de termelétricas para cobrir os horários de ponta. Com baterias cobrindo parte dessa função, a matriz elétrica fica mais limpa, mais barata e mais resiliente.

O que ainda falta acontecer

A portaria com as diretrizes foi publicada. O edital com as regras definitivas ainda precisa sair. O leilão está previsto para dezembro de 2026, mas o calendário do setor elétrico tem histórico de ajustes.

Outro ponto em aberto é o conteúdo local. O governo sinalizou interesse em incluir requisitos de industrialização nacional como contrapartida para os contratos. Isso pode favorecer empresas que se comprometam a montar baterias no Brasil, mas também pode encarecer o projeto e reduzir a competição. O equilíbrio entre atrair investimento estrangeiro e desenvolver cadeia local é uma das tensões centrais que o edital vai precisar resolver.

O monitoramento desse processo, com atenção a prazos, volumes contratados, preços, localização dos sistemas e impacto sobre o curtailment, é exatamente o tipo de dado que permite ao mercado avaliar se o leilão entregou o que prometeu.

É nesse acompanhamento contínuo que a SustenData atua: organizando os dados do setor elétrico para que desenvolvedores, investidores e gestores de ativos tomem decisões com mais fundamento ao longo de todo o ciclo, do edital à operação.

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