Natal está sediando a quarta edição do Brazil Offshore Wind & Power-to-X, o BOWPX 2026. Três dias de evento, 1º a 3 de junho, no Hotel SERHS Natal, reunindo pesquisadores, investidores internacionais, representantes de governo e empresas do setor de energia.
Mas o que tornou essa edição diferente foi o que aconteceu fora do evento.
Semanas antes do BOWPX, o Rio Grande do Norte recebeu a confirmação de que Areia Branca vai sediar a primeira planta comercial de hidrogênio verde e amônia para fertilizantes do Brasil. O projeto se chama Morro Pintado, é desenvolvido pela Brazil Green Energy em consórcio com empresas alemãs e brasileiras, e representa R$ 12 bilhões em investimentos.
Chegar a um fórum internacional de energia offshore carregando essa notícia muda o tom de qualquer conversa.
O Projeto Morro Pintado em números
A escala do Morro Pintado vai além do que se costuma ver em anúncios de energia renovável no Brasil. São 1.400 MW de capacidade instalada, combinando geração eólica e solar. A produção prevista é de 80 mil toneladas anuais de hidrogênio verde e 438 mil toneladas anuais de derivados, incluindo amônia, metanol e ureia verde.
O projeto inclui a construção de um terminal portuário próprio em Areia Branca para exportação, principalmente ao mercado europeu. E já tem a primeira licença ambiental para hidrogênio verde emitida no Brasil, concedida pelo IDEMA do Rio Grande do Norte.
O consórcio reúne BGE, Green Investors, Siemens, Thyssenkrupp e Andritz, com apoio institucional do governo alemão. O anúncio foi feito na Hannover Messe, o maior encontro industrial do mundo.
O que é Power-to-X e por que isso importa
O nome do evento carrega uma sigla que vale explicar. Power-to-X é o conjunto de tecnologias que converte energia renovável em produtos químicos e combustíveis que podem ser armazenados e transportados.
A lógica é simples. Energia solar e eólica são intermitentes. Quando sobram, em vez de desperdiçar ou cortar a geração, essas tecnologias usam o excedente para produzir hidrogênio por eletrólise da água. Esse hidrogênio vira amônia para fertilizantes, metanol para navegação, combustível sustentável para aviação ou simplesmente é exportado.
O Nordeste tem condições únicas para isso. Mais de 3.000 horas de sol por ano, ventos entre os mais regulares do mundo e um litoral que reúne em poucos quilômetros os recursos naturais, a infraestrutura portuária e a conectividade necessários para construir essa cadeia produtiva do zero.
Areia Branca: do sal ao hidrogênio verde
A escolha de Areia Branca não foi acidente. A cidade é a maior produtora de sal marinho do Brasil, tem tradição industrial, porto ativo e ventos costeiros consistentes. Quando o IDEMA emitiu a licença ambiental para o Morro Pintado, foi a primeira vez que o Brasil autorizou formalmente um projeto de hidrogênio verde em escala comercial.
O governo do RN organizou em torno disso o que chamou de Porto Indústria Verde, uma iniciativa para transformar o litoral da Costa Branca em polo de neoindustrialização sustentável. Com a adição de um cabo submarino de fibra óptica previsto para o litoral potiguar, o território combina energia barata, porto com acesso direto ao Atlântico e conectividade internacional de alta velocidade.
Essa combinação é rara no mundo.
Eólica offshore: a fronteira que o Brasil ainda não abriu
Além do hidrogênio, o BOWPX aprofundou as conversas sobre a eólica offshore brasileira, categoria que ainda não tem projetos comerciais em operação no país mas que concentra um potencial enorme no litoral nordestino.
Ventos mais fortes e constantes que em terra, sem conflitos fundiários das usinas terrestres e com geração em horários complementares à solar. O RN e o Ceará estão entre os mais bem posicionados para receber os primeiros parques offshore do Brasil quando a regulamentação avançar.
O marco legal da eólica offshore ainda está em tramitação no Congresso. O BOWPX funciona como espaço onde setor público, academia e investidores constroem os consensos necessários para destravar isso.
A rodada de negócios do dia 3
O último dia do evento foi reservado para uma Rodada de Negócios, com reuniões estruturadas entre investidores, desenvolvedores de projetos e parceiros técnicos.
Em eventos com esse formato, acordos informais frequentemente se convertem em contratos nos meses seguintes. Com projetos licenciados, infraestrutura em desenvolvimento e investidores internacionais presentes, o RN chegou ao dia 3 do BOWPX em posição diferente da maioria dos participantes: com projetos prontos para receber capital.
O que ainda precisa acontecer
O conjunto é promissor, mas não automático.
A infraestrutura de transmissão precisa crescer para dar suporte ao que vai ser gerado. O marco legal da eólica offshore precisa de aprovação com regras claras sobre licenciamento e distribuição de benefícios com as comunidades costeiras. E os financiamentos precisam ser executados com transparência.
Os compradores europeus de hidrogênio verde, amônia e metanol exigem rastreabilidade completa de carbono. Cada tonelada exportada precisa ser acompanhada de dados verificáveis sobre a origem da energia, a pegada hídrica do processo, as emissões evitadas e o impacto social na região produtora. Sem esse monitoramento, os contratos não se sustentam.
É nesse ponto que plataformas como a SustenData se tornam parte da cadeia de valor, não apenas uma ferramenta de gestão, organizando os dados que garantem que o “verde” do hidrogênio seja rastreável, verificável e comunicável ao mercado internacional.
O Rio Grande do Norte está construindo algo que poucos territórios no mundo conseguem reunir. O BOWPX 2026 foi mais um passo nessa direção.
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