Da matéria-prima aos componentes industriais, o Nordeste tem oportunidades para ampliar sua participação na cadeia da transição energética. O avanço depende de tecnologia, infraestrutura e capacidade de transformação.
A Bahia reúne condições para ampliar sua participação nas cadeias de minerais críticos e componentes industriais ligados à transição energética. Essa é a avaliação apresentada pelo superintendente de Política Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fabrício Silveira, em reportagem do Movimento Econômico publicada em 23 de outubro de 2026.
A discussão aproxima o subsolo de produtos presentes no cotidiano, como baterias, veículos elétricos e equipamentos de geração de energia. Entre encontrar um recurso mineral e fabricar um componente, porém, existe uma sequência de etapas industriais.
Uma base mineral que já movimenta a economia
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE), a Produção Mineral Baiana Comercializada alcançou R$ 8 bilhões entre janeiro e junho de 2026, crescimento de 18% sobre o mesmo período de 2025.
Esse valor considera o conjunto da produção mineral comercializada no estado. Não corresponde exclusivamente aos minerais utilizados em baterias nem representa investimentos anunciados para esse segmento.
O dado ajuda a dimensionar a base econômica sobre a qual novas atividades podem ser desenvolvidas. Para identificar oportunidades industriais, é necessário analisar cada mineral, seus produtos e os mercados que poderão utilizá-los.
O que os minerais têm a ver com as baterias?
As tecnologias de baterias utilizam diferentes combinações de materiais. Não existe uma composição única para todos os equipamentos.
A grafita é utilizada na fabricação de ânodos, um dos eletrodos de muitas baterias de íons de lítio. O níquel participa de determinadas composições químicas. O cobre tem aplicações em conexões e componentes condutores de eletricidade.
Já as terras raras merecem uma distinção: sua importância na transição energética inclui ímãs permanentes utilizados em certos motores elétricos e aerogeradores. Não devem ser apresentadas como um ingrediente obrigatório de toda bateria.
Essas diferenças, explicadas pela Agência Internacional de Energia, mostram por que cada oportunidade precisa ser avaliada conforme a tecnologia e o produto pretendidos.
Da extração ao componente industrial
Uma matéria-prima precisa atender às exigências de quem vai utilizá-la. Isso pode envolver beneficiamento, purificação, transformação química, controle de qualidade e fabricação de componentes.
A presença de um mineral em uma região não comprova, por si só, que exista uma reserva economicamente aproveitável ou que seja viável produzir localmente uma bateria completa.
Para avançar, os projetos precisam demonstrar condições técnicas, econômicas, ambientais e comerciais. Também devem considerar os investimentos necessários e a disponibilidade de profissionais especializados.
Estudo da CNI analisa a cadeia brasileira de baterias
A CNI desenvolve um estudo em parceria com o Net Zero Industrial Policy Lab, da Universidade Johns Hopkins, e o Instituto E+ Transição Energética.
O trabalho examina a capacidade produtiva brasileira e as possibilidades de participação nas diferentes etapas da cadeia de baterias, da matéria-prima ao produto final.
O estudo está em andamento. Portanto, suas conclusões não devem ser tratadas como um diagnóstico final já publicado nem como confirmação de novas fábricas.
Onde estão as oportunidades para o Nordeste?
Na análise da SUSTENDATA, a discussão regional deve identificar quais etapas podem ser desenvolvidas com competitividade e responsabilidade ambiental.
Isso inclui avaliar infraestrutura elétrica e logística, disponibilidade de água conforme o processo industrial, qualificação profissional, tecnologia, financiamento e acesso a compradores.
Também é necessário aproximar empresas, centros de pesquisa e instituições de formação. Uma oportunidade industrial exige competências que vão além da extração.
A cadeia pode abrir espaço para atividades como processamento, serviços técnicos, manutenção, análise de materiais e desenvolvimento de fornecedores. A concretização dessas possibilidades depende dos projetos que efetivamente avançarem.
A leitura da SUSTENDATA
A pergunta mais útil para o desenvolvimento regional é: quais produtos e serviços o Nordeste consegue entregar a partir dos recursos e das competências disponíveis?
Responder exige dados sobre os minerais, conhecimento das tecnologias e avaliação das condições locais.
A Bahia já tem uma base mineral relevante. Ampliar sua participação nas cadeias da transição energética dependerá da capacidade de transformar recursos em produtos competitivos, com responsabilidade ambiental e oportunidades de trabalho.
Fontes
• CNI: estudo sobre minerais críticos com foco em baterias.
• Agência Internacional de Energia: aplicações dos minerais críticos.
• Agência Internacional de Energia: Global EV Outlook 2026, capítulo sobre baterias.
Análise editorial: SUSTENDATA.


