Biogás e biometano ganham escala no Brasil: oferta energética cresceu quase 40 vezes em 15 anos

Novo estudo da EPE mostra o avanço do gás renovável no país. O biometano já soma 20 plantas autorizadas, enquanto outros 50 projetos estão em processo de autorização na ANP.

Um número divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética ajuda a dimensionar a transformação pela qual passa o mercado brasileiro de gases renováveis.

Entre 2010 e 2025, a oferta energética de biogás e biometano cresceu quase 40 vezes no Brasil.

O dado faz parte da nova edição da Análise de Conjuntura dos Biocombustíveis, publicada pela EPE em agosto de 2026. O documento reúne os principais indicadores do setor em 2025 e dedica uma análise especial às oportunidades associadas ao biometano.

O crescimento chama atenção não apenas pelo tamanho. Ele acontece no momento em que o biometano começa a ganhar uma estrutura de mercado mais definida, com novas plantas, projetos em desenvolvimento, metas de descarbonização, certificação de origem e estudos voltados à logística.

A discussão, portanto, começa a mudar.

O Brasil já conhece o potencial do biometano. A próxima questão é descobrir onde essa cadeia consegue ganhar escala de forma competitiva.

De resíduo a combustível

O biogás é produzido a partir da decomposição de matéria orgânica em ambiente sem oxigênio. Resíduos agropecuários, agroindustriais, urbanos e outras fontes orgânicas podem alimentar esse processo.

Quando o biogás passa por etapas de purificação para elevar a concentração de metano e remover impurezas, o resultado é o biometano, um combustível renovável com características que permitem aplicações semelhantes às do gás natural.

É justamente essa relação com os resíduos que torna a cadeia particularmente interessante.

Um passivo ambiental pode se transformar em fonte energética, enquanto o gás produzido pode ser direcionado para atividades industriais, geração de energia ou aplicações no transporte.

A análise da EPE destaca essa conexão do biometano com a economia circular, o aproveitamento de resíduos agropecuários e urbanos e os novos instrumentos de certificação ambiental.

O mercado já começa a aparecer nos números

O avanço não está restrito ao potencial técnico.

Levantamento publicado pela Associação Brasileira do Biogás e do Biometano em julho, com base em dados da ANP, apontou 20 plantas de biometano formalmente autorizadas, com capacidade instalada conjunta de 1.331.401 m³ por dia.

Desde a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, 12 novas plantas foram autorizadas, adicionando mais de 714 mil m³ por dia de capacidade ao mercado brasileiro, segundo a associação.

Outro número ajuda a entender o que pode acontecer nos próximos anos.

50 plantas em processo de autorização na ANP, com capacidade potencial adicional superior a 2 milhões de m³ por dia. Entre esses projetos estão unidades ligadas à agroindústria, resíduos sólidos urbanos e codigestão de diferentes tipos de resíduos.

Segundo a ABiogás, a capacidade instalada do setor aumentou cerca de cinco vezes entre 2020 e 2025. A associação projeta um mercado próximo de 7 milhões de m³ por dia e quase 200 plantas até 2030. Como se trata de uma projeção setorial, a realização desses números dependerá da execução dos projetos atualmente em desenvolvimento.

O biometano entrou na política de descarbonização do gás

O avanço dos projetos acontece ao mesmo tempo em que o ambiente regulatório começa a ganhar forma.

Em abril de 2026, o Conselho Nacional de Política Energética estabeleceu para este ano uma meta inicial de 0,5% de redução das emissões de gases de efeito estufa no mercado de gás natural por meio do biometano.

A obrigação alcança produtores e importadores de gás natural e faz parte da implementação da Lei do Combustível do Futuro. O próprio CNPE criou uma mesa de monitoramento para acompanhar a evolução do mercado e avaliar as condições para aumentar a meta posteriormente.

A sinalização importa porque introduz demanda regulatória para um mercado que, até pouco tempo atrás, dependia principalmente de contratos voluntários e decisões individuais de descarbonização.

O CGOB adiciona uma nova camada ao mercado

Outra peça importante é o Certificado de Garantia de Origem do Biometano, o CGOB.

Em março de 2026, a ANP publicou as Resoluções nº 995 e nº 996. A primeira trata da individualização das metas compulsórias para produtores e importadores de gás natural. A segunda regulamenta a certificação necessária para emissão do CGOB.

Na prática, o certificado permite registrar e rastrear o atributo ambiental relacionado ao biometano.

A ANP também estruturou procedimentos para agentes certificadores e para as entidades responsáveis pelo registro eletrônico dos certificados, incluindo sua emissão, movimentação, utilização para cumprimento das metas e aposentadoria.

A agência ainda avançou na discussão sobre a possível fungibilidade do CGOB com outros certificados de atributos ambientais. Em junho, a Diretoria da ANP aprovou um estudo técnico dedicado ao tema.

Isso abre uma frente que merece acompanhamento.

À medida que o mercado amadurece, parte do valor econômico do biometano pode deixar de estar associada apenas à molécula produzida e passar a incluir também seus atributos ambientais certificados.

O próximo gargalo pode estar na logística

Produzir biometano é apenas uma parte da cadeia.

O gás precisa chegar ao consumidor.

Esse ponto ganhou tanta relevância que a EPE publicou, em junho de 2026, uma nota técnica específica sobre o transporte de gás natural comprimido aplicada ao biometano.

O estudo analisa a movimentação do combustível por caminhões e considera logística, custos e emissões associadas ao transporte entre os pontos de produção e os centros consumidores. A proposta é avaliar alternativas para projetos que não estejam conectados diretamente à malha de gasodutos.

Esse é um ponto decisivo para entender a geografia futura do setor.

Uma região pode ter grande disponibilidade de resíduos e, ainda assim, encontrar dificuldades para desenvolver projetos competitivos caso os consumidores estejam muito distantes.

Da mesma forma, determinadas plantas podem se tornar economicamente atraentes justamente pela proximidade com indústrias, frotas pesadas ou outros consumidores de gás.

O mapa do biometano tende, portanto, a ser definido pelo encontro entre resíduo, escala de produção, logística, demanda e regulação.

E o Nordeste?

Para a SUSTENDATA, essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes.

O Nordeste já ocupa posição relevante em diferentes frentes da transição energética brasileira. No caso do biometano, a lógica é diferente daquela observada na energia solar ou eólica.

O recurso não depende principalmente de radiação solar ou velocidade dos ventos. Ele depende da localização e concentração das matérias-primas orgânicas, da disponibilidade de infraestrutura e da existência de consumidores capazes de absorver a produção.

Isso significa que avaliar oportunidades de biometano na região exige olhar para o território de outra maneira.

Onde estão os grandes geradores de resíduos?

Quais polos agroindustriais possuem escala?

Onde estão os aterros, sistemas de saneamento e atividades industriais com potencial de produção?

Quais polos industriais apresentam demanda por gás?

Qual é a distância entre produção e consumo?

Que corredores logísticos podem permitir o transporte de biometano comprimido?

Essas perguntas ajudam a separar o potencial técnico de uma oportunidade efetivamente investível.

O que ainda pode limitar a expansão

Os números mostram crescimento, mas não eliminam os desafios.

A expansão depende da disponibilidade contínua de matéria-prima, escala de produção, investimento nas unidades de purificação, qualidade do gás, logística, contratos de longo prazo e desenvolvimento da demanda.

A distância entre produtor e consumidor também pode mudar completamente a viabilidade de um projeto, motivo pelo qual a própria EPE passou a avaliar custos e emissões associados ao transporte rodoviário do gás comprimido.

No campo regulatório, 2026 representa um avanço importante, mas o mercado ainda precisa transformar as novas regras de certificação e as metas de descarbonização em operações comerciais recorrentes.

Por isso, crescimento de capacidade anunciada e capacidade efetivamente utilizada são indicadores que deverão ser analisados separadamente.

Do potencial ao investimento

O dado de quase 40 vezes resume uma transformação que levou 15 anos.

Mas o que acontece daqui para frente pode ser ainda mais relevante.

O Brasil começa a combinar crescimento da oferta, novos projetos, mecanismos de certificação, metas regulatórias e estudos sobre logística.

A pergunta deixa de ser apenas quanto biometano o país pode produzir.

Agora importa saber onde a cadeia fecha a conta.

Para investidores, indústrias e formuladores de políticas públicas, a próxima etapa exigirá dados sobre matéria-prima, localização, infraestrutura, demanda, custos e ambiente regulatório.

É justamente nessa conexão entre energia, território, indústria e investimento que o avanço do biometano merece ser acompanhado.

🔗 Acompanhe o blog da SUSTENDATA para mais análises sobre biometano e transição energética no Brasil.

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