O Nordeste brasileiro esteve em Londres na semana da London Climate Action Week para apresentar a investidores internacionais um plano ambicioso: atrair R$ 70 bilhões em investimentos até 2030 para instalar indústrias de baixo carbono na região. A iniciativa, batizada de Fórum Powershoring, reúne o Consórcio Nordeste, o Banco do Brasil e o Instituto Clima e Sociedade, e marca um salto de escala em relação aos esforços de articulação institucional que a região vinha construindo desde 2023.
Parte relevante desse capital pode vir do 5º Leilão EcoInvest Brasil, lançado pelo Ministério da Fazenda, que sozinho pretende mobilizar cerca de R$ 50 bilhões para projetos ligados à transição energética. O objetivo agora é claro. Fazer com que grandes indústrias instalem fábricas no Nordeste para aproveitar a energia limpa abundante da região, reduzindo custos de produção e emissões de carbono simultaneamente.
Da exportação de energia para a exportação de produto industrial
Por trás do plano está um conceito que já discutimos aqui no blog: o powershoring. A lógica é simples e poderosa. Em vez de mandar energia limpa para outras regiões ou países, a proposta é atrair a fábrica para o local onde a energia já é barata e abundante.
Como resumiu o economista Jorge Arbache em outro fórum sobre o tema, “o que se propõe nessa estratégia é exportar energia verde embarcada no produto industrial”. Em vez de vender o insumo, o Nordeste passa a vender o produto final, com todo o valor agregado que isso representa em empregos, tecnologia e receita tributária ficando no território.
O secretário executivo adjunto do Ministério da Fazenda, Rafael Dubeux, já havia descrito o powershoring como um dos eixos centrais do Plano de Transformação Ecológica do governo federal, com potencial para acelerar a industrialização de baixo carbono, gerar emprego, estimular inovação e ampliar a competitividade.
As oito cadeias produtivas que o Nordeste está oferecendo ao mundo
O plano apresentado em Londres detalha setores prioritários que a região está posicionando como vantagem competitiva para investidores internacionais.
| Cadeia produtiva | Potencial para o Nordeste |
|---|---|
| Hidrogênio verde | Exportação para Europa e indústria nacional |
| Fertilizantes verdes | Redução da dependência de importações |
| Combustíveis sustentáveis | Aviação e transporte marítimo |
| Inteligência artificial e automação | Modernização industrial |
| Baterias e veículos elétricos | Nova indústria automotiva |
| Beneficiamento de minerais críticos | Agregação de valor à mineração |
| Química verde | Produção de novos materiais sustentáveis |
| Economia circular | Reaproveitamento de resíduos industriais |
Essa lista não é aleatória. Ela reflete exatamente os setores em que o custo de energia representa parcela relevante do custo total de produção. É justamente onde a vantagem competitiva do Nordeste em geração renovável se traduz em vantagem de custo industrial.
O tamanho do impacto projetado
Os números que sustentam o plano ajudam a entender por que o Nordeste está disposto a levar essa proposta diretamente a investidores em Londres, em vez de esperar que o capital chegue por conta própria.
A região já concentra 70% da capacidade eólica e solar instalada no Brasil, segundo o Consórcio Nordeste. Nos últimos cinco anos, somente o Banco do Nordeste viabilizou R$ 32,2 bilhões em investimentos de energia renovável na região, entre plantas eólicas e fotovoltaicas. A expectativa agora é que os novos projetos de industrialização verde ajudem a evitar a emissão de aproximadamente 100 milhões de toneladas de CO2 por ano, além de gerar milhares de empregos qualificados em engenharia, tecnologia, indústria química, logística e inovação.
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, resumiu bem o objetivo político por trás da estratégia. “Nós não queremos mais ficar apenas na exportação de energia, nós queremos atrair indústrias e investimentos que gerem empregos diversos e qualificados, e mais qualidade de vida para o nosso povo”.
O plano tem estrutura, mas ainda precisa provar execução
Essa articulação institucional não nasceu do zero. O Fórum Interinstitucional de Powershoring já havia sido apresentado durante a COP30 no Rio de Janeiro, com cinco eixos estratégicos definidos: infraestrutura logística, indústrias estratégicas, cadeia de valor local, financiamento e capacitação de empregos verdes. A ida a Londres é, portanto, o passo seguinte natural. Sair da governança interna para a captação ativa de capital internacional.
Como já discutimos em análise anterior sobre os gargalos do powershoring nordestino, o desafio que permanece é transformar governança e discurso em projetos efetivamente bancáveis. O relatório da iniciativa ONE, divulgado poucos dias antes da ida a Londres, apontou que 91% dos especialistas do setor ainda veem a falta de visão estratégica regional integrada como o principal obstáculo à industrialização verde da região. A apresentação em Londres é justamente uma tentativa de responder a essa crítica com um plano mais coeso e mensurável.
Por que isso importa para quem investe ou monitora o setor
O plano de R$ 70 bilhões é significativo não pelo valor isolado, mas pelo que ele sinaliza. O Nordeste está deixando de esperar que investidores o descubram e passou a atuar de forma proativa, indo diretamente aos centros financeiros globais com um roteiro de setores prioritários e uma narrativa institucional coordenada entre nove estados.
Para investidores e gestores que acompanham o setor de energia e industrialização de baixo carbono, o sinal relevante é a convergência entre capital disponível, via EcoInvest, BNDES e financiamento internacional, e uma região com vantagem estrutural comprovada em custo de energia. A pergunta que resta é sobre velocidade. Quanto tempo entre o anúncio em Londres e os primeiros contratos e plantas efetivamente instaladas.
Acompanhar esse ritmo de execução é justamente o tipo de dado que a SustenData organiza para quem precisa tomar decisão de investimento com base em fatos, não em anúncios.
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