Em 2017, o Plano Decenal de Expansão de Energia projetou que o Brasil encerraria 2026 com cerca de 13 GW de capacidade solar instalada. A realidade chegou à metade deste ano com 72 GW operacionais. Seis vezes acima do planejamento oficial.
O dado impressiona. Mas entender o que está por trás dele é mais importante do que celebrar o número.
Como o Brasil chegou a 72 GW sem planejamento
A maior parte desse crescimento não veio de grandes usinas construídas pelo setor elétrico regulado. Veio de telhados.
Dos 72 GW totais, cerca de 50 GW pertencem à micro e minigeração distribuída: painéis instalados em residências, comércios, propriedades rurais e indústrias. Outros 22,5 GW vêm de usinas solares centralizadas de grande porte. A geração distribuída cresceu impulsionada por incentivos fiscais, queda de custo dos equipamentos e facilidade de financiamento. Não foi resultado de um plano centralizado. Foi a soma de milhões de decisões individuais de consumidores que calcularam que colocar painel no telhado era mais barato do que continuar pagando a conta de luz com bandeira tarifária.exame+1
O Brasil também superou a projeção da Agência Internacional de Energia, que em 2022 estimava que o país atingiria 66 GW até o fim de 2027. Essa marca foi superada com mais de um ano e meio de antecedência.
O paradoxo que o número não mostra
72 GW de solar instalada é um marco histórico. Mas é também parte direta do problema mais sério que o setor elétrico brasileiro enfrenta hoje.
Em 2025, o curtailment, o corte forçado de geração renovável por incapacidade da rede de absorver tudo que é produzido, chegou a 20,6% da energia solar e eólica disponível. Em março deste ano, o ONS acionou pela primeira vez o Plano de Gestão de Excedentes para cortar 1.000 MW do sistema porque havia energia de mais para a rede suportar.
Uma matriz com quase 90% de fontes renováveis e uma rede de transmissão que não consegue entregar toda essa energia ao consumidor final. Esse é o paradoxo que o número de 72 GW, sozinho, não revela. O crescimento foi real e expressivo. Mas foi mais rápido do que a infraestrutura que precisaria acompanhá-lo.
O que esse descompasso gera na prática
Para quem desenvolve projetos de energia solar, o descompasso entre capacidade instalada e capacidade de transmissão significa menos horas de geração faturada. O curtailment corrói a receita de projetos que foram modelados com premissas de geração que o sistema atual não consegue garantir.
Para o consumidor final, o paradoxo aparece de outra forma. O Brasil tem a matriz mais limpa do mundo, mas a conta de luz subiu. A ANEEL previu aumento de 8,6% nas tarifas em 2026, acima da inflação, em parte porque o crescimento acelerado da geração distribuída desequilibrou a estrutura de custos do sistema.
Para investidores, o dado de 72 GW é sinal de mercado aquecido. Mas acompanhar curtailment, capacidade de transmissão disponível por região e regulação tarifária passou a ser parte obrigatória da análise de risco de qualquer projeto solar no Brasil.
O planejamento que ficou para trás
A distância entre os 13 GW projetados e os 72 GW realizados não é só uma conquista. É também um indicador de que o planejamento energético brasileiro não acompanhou a velocidade do mercado.
Quando o PDE 2026 foi publicado, o custo da energia solar era outro. Os incentivos para geração distribuída eram outros. O acesso ao crédito era outro. Nenhum desses fatores foi previsto na magnitude em que se realizou.
O que esse dado mostra, no fundo, é que dados em tempo real valem mais do que projeções antigas. Quem tomou decisões de investimento com base nos números do PDE de 2017 perdeu a dimensão real do mercado que estava se formando. É o tipo de distância entre o dado oficial e a realidade do setor que a SustenData existe para monitorar.
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