Mais de 570 projetos já concentram US$ 130 bilhões em investimentos comprometidos no mundo. Enquanto isso, o Brasil registra sua primeira venda comercial de hidrogênio verde e o Ceará se prepara para projetos de escala muito maior.
Durante alguns anos, boa parte das notícias sobre hidrogênio limpo falava de projetos anunciados, memorandos assinados e planos para o futuro.
Agora os números começam a contar uma história diferente.
O investimento global comprometido em projetos de hidrogênio limpo ultrapassou US$ 130 bilhões, segundo o Global Hydrogen Compass 2026, relatório divulgado pelo Hydrogen Council em parceria com a consultoria McKinsey & Company.
São mais de 570 projetos que já avançaram para etapas mais maduras, representando uma capacidade de aproximadamente 6,9 milhões de toneladas de hidrogênio limpo por ano.
E um dado chama ainda mais atenção:
cerca de 90% desses projetos já estão em construção ou operação.
Isso não significa que todos os projetos de hidrogênio anunciados no mundo estejam avançando.
Muitos continuam enfrentando dificuldades.
Mas mostra que uma parte importante do setor começa a deixar a fase das promessas e entrar na fase da execução.
O que significa hidrogênio limpo?
Hidrogênio é um gás que pode ser utilizado como combustível ou matéria-prima em diferentes setores da economia.
Ele pode participar da produção de fertilizantes, aço, combustíveis sintéticos e diversos produtos industriais.
O problema é que grande parte do hidrogênio utilizado atualmente é produzida a partir de combustíveis fósseis.
Quando falamos em hidrogênio limpo, estamos tratando de formas de produção com emissões de carbono muito menores.
Uma delas é o chamado H2V (hidrogênio verde).
Nesse caso, o hidrogênio é produzido principalmente através da eletrólise da água utilizando eletricidade de fontes renováveis.
A eletrólise é um processo que utiliza energia elétrica para separar as moléculas da água e produzir hidrogênio e oxigênio.
Por isso, lugares com grande disponibilidade de energia solar e eólica passaram a ganhar atenção nesse mercado.
É exatamente nesse ponto que o Nordeste brasileiro entra nessa história.
De US$ 110 bilhões para mais de US$ 130 bilhões
O avanço do mercado pode ser percebido comparando os números dos últimos dois anos.
Em 2025, o Hydrogen Council apontava pouco mais de US$ 110 bilhões em investimentos comprometidos e cerca de 510 projetos mais maduros.
Agora o número ultrapassou US$ 130 bilhões e passou de 570 projetos.
O relatório também afirma que a capacidade operacional global praticamente dobrou no último ano e pode voltar a dobrar com a entrada em operação dos projetos que estão atualmente em construção.
O crescimento, porém, não acontece da mesma forma em todas as regiões.
A China concentra mais da metade da capacidade comprometida de hidrogênio renovável no mundo e respondeu por cerca de 90% da nova capacidade operacional adicionada desde 2025.
A Europa possui o maior número de projetos e registrou crescimento de aproximadamente 35% nos investimentos desde o ano passado.
Os Estados Unidos continuam liderando os projetos de hidrogênio e amônia de baixo carbono que utilizam outras rotas tecnológicas.
O próximo desafio não é anunciar. É encontrar quem compre
Apesar dos números positivos, o setor ainda enfrenta uma barreira importante:
demanda.
Em termos simples, não basta construir uma fábrica capaz de produzir hidrogênio.
É necessário ter empresas dispostas a comprar esse produto e pagar um preço que permita ao projeto funcionar financeiramente.
O Hydrogen Council estima que as políticas existentes poderiam criar demanda potencial de aproximadamente 11 milhões de toneladas por ano até 2030.
Desse total, aproximadamente 6 milhões de toneladas por ano já contam com políticas efetivamente implementadas.
Os outros 5 milhões ainda dependem da execução de medidas prometidas pelos governos.
Esse ponto ajuda a explicar por que alguns projetos avançam e outros não.
Um projeto precisa combinar energia competitiva, infraestrutura, clientes, financiamento e regras claras.
Sem essa combinação, mesmo uma região com excelente potencial renovável pode ter dificuldade para transformar o recurso natural em uma nova indústria.
Nem todos os projetos estão sobrevivendo
O amadurecimento também está eliminando projetos que não conseguiram fechar essa conta.
A Reuters destaca que custos elevados e falta de demanda continuam provocando cancelamentos e reduções de projetos, principalmente em aplicações nas quais substituir combustíveis fósseis ainda é economicamente difícil.
Entre os exemplos estão determinadas aplicações na siderurgia e no transporte de longa distância.
Isso não significa necessariamente que o mercado fracassou.
Significa que o setor está começando a separar projetos com condições reais de execução daqueles que nasceram em um momento de maior entusiasmo, mas não conseguiram avançar.
É uma diferença importante.
Projeto anunciado não é o mesmo que projeto comprometido.
E projeto comprometido ainda não significa necessariamente operação comercial.
No Brasil, a primeira venda comercial já aconteceu
Enquanto o mercado global amadurece, o Brasil também registrou um marco.
Segundo reportagem de O POVO, baseada em anúncio da ABIHV (Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde), foi emitida em São Paulo a primeira nota fiscal comercial de hidrogênio verde do país.
O hidrogênio é produzido pela White Martins em Jacareí.
A unidade possui eletrolisador de aproximadamente 5 megawatts (MW) e capacidade de produção da ordem de 800 toneladas por ano.
O produto está sendo direcionado para uso industrial.
Pode parecer uma quantidade pequena quando comparada aos grandes projetos anunciados para o Brasil.
E justamente por isso esse caso é interessante.
Uma operação menor consegue testar tecnologia, logística, fornecedores, contratos, certificação e utilização comercial.
Ela ajuda o mercado a aprender.
E o Ceará?
Aqui a escala muda completamente.
O Complexo Industrial e Portuário do Pecém se prepara para projetos voltados principalmente à produção de hidrogênio e derivados em grande escala.
Uma atualização publicada por O POVO em 7 de setembro aponta seis pré-contratos, envolvendo aproximadamente R$ 63 bilhões em investimentos previstos e uma produção potencial estimada em 4,2 milhões de toneladas por ano.
Entre as empresas citadas estão Fortescue, Casa dos Ventos, Auren Energia, FRV, EDF Renewables e Fuella AS.
É uma escala completamente diferente da planta de Jacareí.
Mas existe uma diferença igualmente importante.
São Paulo já possui uma operação comercial.
Os grandes projetos do Ceará ainda precisam atravessar uma etapa decisiva.
O que é FID?
Quem acompanha notícias de hidrogênio provavelmente vai encontrar cada vez mais essa sigla:
FID (Final Investment Decision).
Em português, significa Decisão Final de Investimento.
É o momento em que os responsáveis pelo projeto concluem que existem condições suficientes para colocar o capital necessário na implantação.
Antes da FID, normalmente ainda são avaliados pontos como:
viabilidade econômica, contratos de venda, licenciamento ambiental, financiamento, fornecedores, tecnologia, conexão elétrica e infraestrutura.
Em outras palavras, um projeto pode possuir terreno, memorando, estudo e até pré-contrato e ainda não ter chegado à decisão definitiva de construção.
Segundo a atualização mais recente citada por O POVO, as decisões finais de investimento de parte dos projetos cearenses são esperadas para 2027, com produção projetada a partir de 2029.
Um detalhe importante sobre os números do Pecém
Os números do portfólio mudam conforme projetos avançam, alteram configuração ou deixam determinadas etapas.
Em abril de 2026, por exemplo, o próprio Complexo do Pecém informava sete pré-contratos e aproximadamente R$ 60 bilhões em investimentos, com decisões finais previstas inicialmente para o fim de 2026.
Já a atualização publicada em setembro fala em seis pré-contratos, R$ 63 bilhões e decisões esperadas em 2027.
Para acompanhar esse mercado corretamente, portanto, não basta guardar o valor anunciado uma vez.
É necessário acompanhar a evolução de cada projeto.
Por que o Nordeste aparece tanto nessa discussão?
Produzir hidrogênio verde exige muita eletricidade.
E o Nordeste possui uma combinação particularmente favorável de recursos solares e eólicos.
Mas energia renovável é apenas uma parte da equação.
Grandes projetos também precisam de:
infraestrutura de transmissão, água, acesso portuário, áreas industriais, fornecedores, profissionais qualificados, financiamento e compradores.
É por isso que o Pecém aparece com frequência nas discussões sobre hidrogênio.
O complexo reúne geração renovável disponível na região, área industrial, uma ZPE (Zona de Processamento de Exportação) e acesso portuário.
Esses elementos podem ajudar empresas interessadas em produzir hidrogênio e derivados para o mercado nacional e internacional.
O produto final talvez nem seja o hidrogênio
Outro ponto importante para quem não acompanha o setor de perto:
o hidrogênio não precisa necessariamente ser vendido como hidrogênio.
Ele pode ser utilizado dentro de outra cadeia industrial.
Pode ajudar a produzir:
amônia de baixo carbono, e-metanol, combustíveis sintéticos, fertilizantes e ferro de menor emissão.
Isso pode aumentar muito o impacto econômico de uma região.
Em vez de simplesmente produzir eletricidade renovável para enviar pelo sistema elétrico, um estado pode utilizar parte dessa energia para produzir novos bens industriais.
A equação começa a mudar:
ENERGIA → HIDROGÊNIO → INDÚSTRIA → EXPORTAÇÃO
US$ 130 bilhões são importantes. Mas o próximo número será mais importante
O relatório divulgado hoje mostra que o hidrogênio limpo entrou em uma etapa mais madura.
Mais de US$ 130 bilhões já estão comprometidos.
Mais de 570 projetos avançaram.
A capacidade operacional está aumentando.
Mas custo, demanda, infraestrutura e financiamento continuam separando projetos viáveis daqueles que provavelmente não chegarão à operação.
No Brasil, a primeira operação comercial mostra que a cadeia começa a funcionar na prática.
No Nordeste, os projetos possuem escala muito maior, mas ainda precisam atravessar decisões financeiras fundamentais.
Por isso, talvez o indicador mais importante dos próximos anos não seja:
quantos bilhões foram anunciados?
Será:
quantos projetos chegaram à FID, entraram em construção e começaram a produzir?
É nessa passagem do potencial para a execução que o hidrogênio poderá começar a transformar territórios.
E é justamente essa passagem que merece ser acompanhada através dos dados.
SUSTENDATA | Energia, território, indústria e investimento.


