Na maior feira industrial do mundo, o Rio Grande do Norte entrou no mapa global do hidrogênio verde de vez.
Na terça-feira, 21 de abril de 2026, durante a Hannover Messe, na Alemanha, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema) entregou a licença prévia ambiental para o Projeto Morro Pintado, desenvolvido pela empresa Brazil Green Energy em parceria com a Siemens e com apoio do governo alemão.
O empreendimento representa um investimento de R$ 12 bilhões, capacidade instalada de 500 MW e será construído em Areia Branca, na região de Mossoró, a cerca de 280 km de Natal. Será a primeira fábrica de hidrogênio verde e amônia verde em escala industrial do estado.
Um Projeto Anunciado no Lugar Certo
A escolha da Hannover Messe para o anúncio não foi por acaso. Considerada o maior encontro industrial do mundo, a feira reúne governos, investidores e empresas de tecnologia de todo o planeta. Apresentar a licença do Morro Pintado nesse palco foi um gesto político e comercial claro: o RN quer atrair capital internacional para o setor.
Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do RN (FIERN), esteve presente na solenidade como parte da missão empresarial da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A fala dele resume bem o peso do momento: “A transição energética mundial passa pelo Rio Grande do Norte e essa licença é um marco, um avanço decisivo na produção do hidrogênio verde e amônia no nosso estado.”
O presidente da ApexBrasil, Laudemir Muller, foi direto sobre a estratégia: “Vamos usar a energia limpa que tem no Nordeste e está sobrando, e vamos transformar em hidrogênio e amônia, para exportar e consumir internamente.”
O Que o Projeto Morro Pintado Entrega
O complexo de Areia Branca é desenhado para operar em escala industrial real, não como piloto ou experimento. Além da planta de produção, o projeto inclui um terminal portuário próprio para exportação, o que elimina um dos principais gargalos logísticos que projetos similares enfrentam no Brasil.
Os pontos centrais do empreendimento são:
- Capacidade instalada de 500 MW de produção de hidrogênio verde
- Produção de hidrogênio verde e amônia para mercado interno e exportação
- Terminal portuário dedicado em Areia Branca, com acesso direto ao Atlântico
- Parceria com a Siemens e apoio formal do governo alemão
- Licença ambiental prévia já emitida pelo Idema
A emissão da licença prévia é o primeiro passo do processo de licenciamento ambiental no Brasil e sinaliza que o projeto passou pela avaliação técnica inicial e está autorizado a avançar para as próximas etapas.
Por Que o RN é o Destino Natural do Hidrogênio Verde
A escolha de Areia Branca não é aleatória. O município fica no chamado “Polígono dos Ventos”, faixa litorânea do Rio Grande do Norte com um dos melhores regimes eólicos do planeta. A região concentra alguns dos parques eólicos mais produtivos do Brasil e tem infraestrutura portuária já existente, historicamente usada para exportação de petróleo e sal.
Em abril de 2026, o governo estadual publicou o Atlas de Hidrogênio Verde do RN, documento técnico que demonstra que o estado, usando apenas 20% das áreas aptas para produção, consegue superar a demanda projetada para 2040: mais de 20 milhões de toneladas anuais para uma demanda esperada de 11 milhões.
Ranieri Rodrigues, pesquisador do Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis, destaca que estudos do Instituto Fraunhofer, da Alemanha, e do ISI-ER apontam o RN entre os lugares mais competitivos do Brasil para o desenvolvimento da cadeia produtiva do hidrogênio.
Além disso, o estado possui desde 2025 um marco legal estadual próprio para o setor, o Regime Especial de Incentivos RNVerde, que oferece benefícios fiscais por até 10 anos para empreendimentos habilitados.
Um Setor que Está Crescendo em Todo o Nordeste
O Morro Pintado é o projeto mais avançado, mas está longe de ser o único. O Nordeste como um todo vive uma corrida de investimentos no hidrogênio verde que tem poucos paralelos no país.
Outros movimentos relevantes em andamento na região incluem:
- A planta-piloto da Petrobras na Usina Termelétrica do Vale do Açu, em Alto do Rodrigues (RN), desenvolvida com a WEG e apoio do SENAI, com capacidade de eletrólise de 2 MW e previsão de operação ainda em 2026
- Projetos de amônia verde e fertilizantes sustentáveis na Paraíba, com capacidade anual estimada de 5 mil toneladas de amônia
- Empreendimentos em fase avançada no Ceará, Bahia e Pernambuco, com investimentos que somam bilhões e destinação ao mercado europeu e asiático
A CNI e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do RN estimam que, somados todos os projetos em desenvolvimento no estado, o potencial de atração chega a US$ 20 bilhões em investimentos diretos e 5 GW de energia.
Exportar Energia Limpa é o Objetivo
Diferente de outros recursos naturais que o Brasil exporta há décadas sem agregar valor, o hidrogênio verde representa uma oportunidade rara: transformar localmente a energia renovável que já sobra e vender o produto final para os maiores mercados do mundo.
A União Europeia, em processo de transição para uma matriz energética limpa, e países asiáticos como Japão e Coreia do Sul estão entre os maiores compradores potenciais de hidrogênio verde e amônia. O Brasil, e especialmente o Nordeste, está bem posicionado geograficamente para abastecer esses mercados por rota marítima.
Para que esse posicionamento se consolide em negócios reais, porém, os projetos brasileiros precisarão cumprir exigências rigorosas de certificação internacional, comprovando que o hidrogênio produzido é de fato verde, com baixas emissões de CO₂ por kg produzido e rastreabilidade ao longo de toda a cadeia.
Onde Dados de Sustentabilidade Entram Nessa Equação
Certificar hidrogênio verde para o mercado europeu não é simples. A regulação europeia exige que o produto gere menos de 7 kg de CO₂ equivalente por kg de H₂ ao longo de todo o ciclo produtivo. Cada etapa precisa ser documentada, monitorada e comunicada de forma confiável para que o produto seja aceito nos mercados de destino.
Plataformas como a SustenData se tornam estratégicas nesse contexto porque fornecem dados que ajudam empresas a tomar decisões mais fundamentadas e a identificar as melhores oportunidades de investimento no setor de forma confiável e orientada a impacto real.
O Rio Grande do Norte tem a licença. Tem o vento. Tem o porto. O próximo passo é garantir que cada tonelada de hidrogênio produzida chegue ao mercado com dados sólidos que comprovem sua origem limpa.
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